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::Devaneios Etílicos:: Pequeno ensaio sobre a dor e suas conseqüências na mente humana É estranho sentir essa dor... Uma dor velha, passada, ultrapassada, mas que ainda assim é tão doída!! Uma dor apertada, que me faz ir atrás de muita coisa que já passei, que já senti, que já sofri. Que me faz ir atrás de poesia, de Baudelaire, e pedir pra ele me explicar como é amar como se ama uma abóbada noturna? Que faz Rilke me contar que a solidão é como a chuva. Que me faz ver que no meio do caminho tem um convite triste do Drummond: "Meu amigo, vamos sofrer vamos beber, vamos ler jornal vamos dizer que a vida é ruim, meu amigo, vamos sofrer. Vamos fazer um poema ou qualquer outra besteira. (...) Vamos beber uísque, vamos beber cerveja preta e barata, beber, gritar e morrer, ou, quem sabe? beber apenas. Vamos xingar o homem Que está envenenando a vida (...) Meu amigo, vamos cantar, vamos chorar de mansinho e ouvir muita vitrola, depois embriagados vamos beber mais outros seqüestro (o olhar obsceno e a mão idiota) depois vamos vomitar e cair e dormir" Depois de acordarmos de ressaca, calmamente, com seu jeito unicamente triste (ou seria tristemente único?) que só um bom mineiro, dos que sabem o que é angu e o que é feijão tropeiro pode ter, ele me pergunta e aconselha sobre o amar-amaro: "por que amou por que amou se sabia proibido passear sentimentos ternos ou desesperados nesse museu do pardo indiferente me diga: mas por que amar sofrer talvez como se morre de varíola voluntária vágula evidente? ah PORQUE AMOU e se queimou toda por dentro por fora nos cantos nos ecos lúgubres de você mesma irmã retrato especulo por que amou? Se era para ou era por como se entretanto todavia toda via mas toda vida é indagação do achado e aguda espostejação da carne, do conhecimento, ora veja permita cavalheira amiga me releve este malestar cantarino escarninho piedoso este querer consolar sem muita convicção o que é inconsolável de ofício a morte é esconsolável consolatrix consoadíssima a vida também tudo também mas o amor cara colega este não se consola nunca de nuncarás." Ah, esses poetas!! Acho que faltava ele, o Vinícius, o poetinha com seus sonetos, a me lembrar daqueles versos que eu já soube de cor alguma vez na minha vida, e que traduzem essa tão falada e cantada dor que eu estou vivendo, a da separação que eu preciso tomar definitiva e violentamente como verdade: "De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e claro como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mãos espalmadas fez-se o espanto. De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama. De repente, não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente. Fez do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente, não mais que de repente." E continuou com outro de seus sonetos, o da tão sonhada e, acredito eu utópica fidelidade, me dizendo por fim aquilo que eu precisava ouvir: "Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure." E foi. No passado: FOI. Tem que ser. Ser de acontecer e ser de passado. Aí, eu agradeci a ajuda, matei um pernilongo, me despedi, e eles me deixaram, aqui, pensando sobre isso tudo, na ótima companhia do meu belo cachorrinho Alvo José, já adormecido e roncante a essa altura. Bom, no fim das contas a dor não passou. Mas ela me faz pensar nos rumos malucos que a vida toma de vez em quando... me fez reavaliar minhas decisões, minhas palavras, minhas atitudes, meus valores. Me fez sentir sem chão, sem rumo, sem horizonte, sozinha. Ela me fez chorar, travar os dentes, querer vomitar, querer sumir, querer ter aula. Ela me fez ler poesia, me fez escrever de novo. Depois me fez chorar de novo. E reler todos poemas que poetas tão poetas deixaram para mim. E depois ela (a dor), me fez entender que é assim que tem que ser. Igual àquele amor antigo lá de baixo: "tanto mais antigo quanto mais amor". Ela me falou também que não irá embora de repente: que vai me ajudar a encontrar meu chão, meu rumo. Que vai me obrigar a passar por um processo lento, difícil e talvez até solitário. Mas ela, a dor, me prometeu que, no fim disso tudo eu vou estar forte, consolidada e feliz. De novo. Até a próxima vez que eu conhecer alguém, me apaixonar perdidamente. E sofrer. De novo. XVIII/XIV II:XVIII am (escrito por mim na minha casa sem internet para posterior publicação neste blog) Escrito por Anna Lee às 13h12 [] [envie esta mensagem] |
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